A vida offline
Caderno de Curiosidades
A imagem de capa desta edição é da Catarina Machado.
Numa entrevista gravada em 2024, Zadie Smith explicou como organiza a sua vida sem um smartphone.
A parte que mais intrigava o entrevistador, Ezra Klein, era a das deslocações - como sair de casa sem a ajuda de um GPS?
A resposta é, em si mesma, uma viagem ao passado: a escritora planeia os trajetos antecipadamente com a ajuda de um mapa, que depois leva consigo para consultar em caso de dúvidas, para grande gozo de quem com ela se cruza nos transportes públicos.
O relato fez-me recordar um exercício criativo que o Tiago do Tira do Papel propôs em tempos: O que aconteceria se a Internet parasse de funcionar durante dois anos?
Resolvi aplicá-lo a um período mais curto, neste caso, a última semana de junho: O que mudaria na minha experiência de trabalho?
As três reuniões que tive online seriam presenciais. Foram sessões de 30 minutos, que fiz em casa, mas cada uma passaria a ter um tempo de deslocação estimado de uma hora (ida e volta, de metro).
Parte do trabalho que fiz nessa semana foi de curadoria e escrita para redes sociais e newsletters, pelo que seria necessário imaginar novos formatos de comunicação offline para as empresas com as quais trabalho (ou voltar a formatos antigos).
A maioria dos emails que enviei (pontos de situação, dúvidas, trocas de ideias) seriam substituídos por SMS ou telefonemas.
Os emails com ficheiros em hiperligação ou em anexo (documentos de trabalho, apresentações) seriam trocados por encontros presenciais para fazer as transferências via pen.
A newsletter que saiu no dia 27 seria enviada por correio, apenas para as pessoas a quem conseguiria pedir a morada. Faria a curadoria de conteúdos a partir de jornais, revistas, livros, rádio, televisão e eventos locais. Alinharia por telefone o tema de abertura com a Catarina, e depois juntar-nos-íamos para colar texto e imagem antes de fazer a impressão.
Deixaria de receber muitas das minhas newsletters favoritas, sobretudo as que vêm de fora (UK, Estados Unidos, Brasil), porque o custo de envio por correio seria incomportável para quem as escreve.
Não ouviria podcasts.
Não abriria o Instagram uma única vez.
Não receberia nem enviaria mensagens em grupos de Whatsapp.
E na tua realidade, o que seria diferente?
Excesso de reuniões
Este mês voltei à escrita de textos mais longos para refletir sobre um tema que tem estado muito presente nos workshops que tenho feito em empresas: o excesso de reuniões.
Evitar o Burnout… Com Legos?
Em 2022 apontei para esta tendência, que começava a despontar, e agora vemo-la levada a um extremo: a Deloitte acaba de atualizar o seu plano de benefícios para incluir a compra de Legos. Tenho defendido publicamente a importância dos hobbies, mas usá-los como medida anti-Burnout parece-me perigoso e irresponsável. Vale a pena repetir: o Burnout é um problema sistémico, e não individual.
O sermão da era digital
Ora aqui está algo que nunca esperei ver: um commencement speech cuja principal recomendação é: “Mantenham o telemóvel à distância”. Estes discursos em cerimónias de graduação são uma tradição antiga nas universidades americanas, e geralmente contêm conselhos, lições de vida e orientações gerais para um percurso de sucesso - Maria Popova chamou-lhes “o sermão secular dos nossos tempos”. Que alguém - em especial uma psicóloga com a carreira de Angela Duckworth - tenha decidido abordar um tema aparentemente tão mundano dá-nos uma noção do problema que temos em mãos.
Caminhadas temáticas
Durante a fase de pesquisa para o meu livro, experimentei alguns exercícios de observação em caminhada. Um dos que inventei consistia em procurar e fotografar dégradés naturais:



Numa edição especial da sua newsletter, Rob Walker partilha vários exemplos de caminhadas temáticas que contribuem para expandir a atenção e a criatividade. Os meus preferidos: neighborhood-calendar walks (bom para fazer com crianças) e micro-joy walks.
A arte do colecionismo
Aprendi muito com a série “A Vida dá uma Coleção”, escrita e apresentada pelo Martim Sousa Tavares em parceria com a Veritas. Um olhar atento sobre a arte - e o colecionismo - em apenas 11 episódios de pouco mais de 5 minutos cada.
Tangente
Duas bibliotecas universitárias fizeram compilações em vídeo de todos os objetos encontrados a servir de marcador nos seus livros. Há vários pedaços de papel, mas também um pionés e uma goma! E tu, o que usas para marcar as páginas? Marcador tradicional ou o que vier à mão? Partilha nos comentários!
📌 Ver as coleções: a da Oriel Library e a da GSA Library
Estas foram algumas das ideias que passaram pelos meus cadernos ao longo deste mês e que escolhi partilhar contigo.
Até agosto! 👋











Adorei esta! Adorei o exercício inicial e acho que o vou propor aos meus sobrinhos para ver as ideias que surgem nas gerações que já não conheceram o mundo sem internet, smartphones, redes sociais etc.
E aquele sermão é mesmo incrível. Vou levar as dicas para me ajudar e partilhar com outras pessoas.
Quanto a marcadores de livros, não uso porque as orelhas que trazem da capa e contracapa vão servindo para isso (perdoem os autores que lá escrevem a sua biografia ou lista de obras).
Adorei esta edição. Em miúda não ligava muito à Lego, mas tornei-me uma grande fã em adulta. São momentos de puro prazer e descontração que me ajudam a "limpar" a mente. Quanto a marcadores de livros, uso o que estiver à mão. De recibos a listas de compras, passando por bilhetes e fotografias até a fitas.